23 de março de 2016

Rasgos

Ouvem-se tambores no outro lado.
Pedras soltas rolam pelos muros.
A argamasssa do Tempo esfarela-se.
Um muro.
Todos podem ver, todos olham,
A todos cega.

Uma criança,
Solta,
Leve,
Olha pelo rasgão no muro.
Procura os tambores,
Desvia-se das pedras,
Sacode a argamassa dos ombros pequenos.

A criança olha para cá,
Para o lado onde está,
O lado seguro,
Disse o pai,
O lado que deve ser,
Disse a mãe.

Rolam mais pedras,
Caiem bocados já,
Os muros são rendados.
A criança olha novamente para lá.

Dizem-lhe que deste lado é que é,
Que os muros estão lá para proteger.
Contam histórias de monstros de lá,
Fantasmas que roubam infancias,
Barbas que escondem armas
E Mal, muito Mal por lá anda.

A criança continua a olhar,
Põe o pequeno dedo no esfarelado rasgo que dá para lá,
Força um punho,
A curiosidade dá-lhe força,
Empoleira-se na sua meninice e olha.

Olha novamente.
Procura os tambores,
os fantasmas,
o Mal.
Não vê nada.

É tudo igual do outro lado do muro.
Consegue passar uma perna,
Todo o corpo esguio.
Vê crianças do lado de lá,
Vê homens de barba que sorriem,
Os tambores agora parecem música.

Feliz corre para os pais e diz:
Lá é igual a aqui! Lá é igual a aqui!

Dizem-lhe que pode parecer igual, mas que há locais mais iguais que outros e que aquele igual é diferente. Pergunta: porquê? Dizem-lhe: É assim e pronto!

Tapam os buracos, cobrem os rasgos das pedras soltas, colocam uma placa a dizer "Não ultrapassar". A criança não volta. Mas voltará outra, a forçar a Verdade através dos muros, com punhos pequenos e uma mente grande e livre. Podem rolar pedras e esfarelar argamassas, não há muro que resista à vontade humana e o lá...bem...o lá e o cá são apenas uma questão de quebrarmos muros e transformarmos tudo em Aqui, Hoje e Nós.


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