27 de março de 2016

(Des)Ilusões

O maior desafio nas relações humanas parte da incapacidade das pessoas saberem e agirem em conformidade com o que querem.

Querem tudo, não querem nada e mais do que isso, esperam que no meio da indecisão, haja sempre alguém igualmente indeciso que os acompanhe na sua incapacidade de querer e fazer.

Para cada sonho, existe uma falta de vontade inerente para trabalhar e de sacrificar o necessário para construir uma estrutura sólida. Para cada desejo, existem desculpas que se inventam, prioridades que não se definem e tempo perdido em modo barata-tonta.

O mundo gira como se fosse tudo eterno, tudo remediável, num processo de desculpabilização e alheamento das consequências das suas acções. Ninguém se importa com ninguém, porque ninguém se dá o bastante para se importar. Famílias não se constituem, antes, fragmentam-se porque os seus elementos são incapazes de criar prioridades válidas.

Os país descarregam nos filhos as frustrações do que não foram, os filhos farão o mesmo aos seus. Os casais querem tanto juntos, fazendo tão pouco juntos, desconhecidos de si mesmos, em que tudo é prioridade fora o casal que julgam ser. Os homens querem namoradas, não mulheres; as mulheres querem filhos, não homens. Assim se criam núcleos de famílias que nunca o serão.

Hoje é um dia triste.

Virão outros que não o serão.

23 de março de 2016

Rasgos

Ouvem-se tambores no outro lado.
Pedras soltas rolam pelos muros.
A argamasssa do Tempo esfarela-se.
Um muro.
Todos podem ver, todos olham,
A todos cega.

Uma criança,
Solta,
Leve,
Olha pelo rasgão no muro.
Procura os tambores,
Desvia-se das pedras,
Sacode a argamassa dos ombros pequenos.

A criança olha para cá,
Para o lado onde está,
O lado seguro,
Disse o pai,
O lado que deve ser,
Disse a mãe.

Rolam mais pedras,
Caiem bocados já,
Os muros são rendados.
A criança olha novamente para lá.

Dizem-lhe que deste lado é que é,
Que os muros estão lá para proteger.
Contam histórias de monstros de lá,
Fantasmas que roubam infancias,
Barbas que escondem armas
E Mal, muito Mal por lá anda.

A criança continua a olhar,
Põe o pequeno dedo no esfarelado rasgo que dá para lá,
Força um punho,
A curiosidade dá-lhe força,
Empoleira-se na sua meninice e olha.

Olha novamente.
Procura os tambores,
os fantasmas,
o Mal.
Não vê nada.

É tudo igual do outro lado do muro.
Consegue passar uma perna,
Todo o corpo esguio.
Vê crianças do lado de lá,
Vê homens de barba que sorriem,
Os tambores agora parecem música.

Feliz corre para os pais e diz:
Lá é igual a aqui! Lá é igual a aqui!

Dizem-lhe que pode parecer igual, mas que há locais mais iguais que outros e que aquele igual é diferente. Pergunta: porquê? Dizem-lhe: É assim e pronto!

Tapam os buracos, cobrem os rasgos das pedras soltas, colocam uma placa a dizer "Não ultrapassar". A criança não volta. Mas voltará outra, a forçar a Verdade através dos muros, com punhos pequenos e uma mente grande e livre. Podem rolar pedras e esfarelar argamassas, não há muro que resista à vontade humana e o lá...bem...o lá e o cá são apenas uma questão de quebrarmos muros e transformarmos tudo em Aqui, Hoje e Nós.


18 de março de 2016

Férias Românticas

Ora portanto, um casal normal, quando pensa em férias românticas, normalmente inicia todo um processo de aquisição de uma viagem numa low-cost apertadinha, para ir a Paris ou a Londres, ficar lá uma noite, correr a cidade à pressa, cansar-se e tirar 300 fotos para que uma fique bem.

Outro casal normal, quando pensa em férias românticas, vê se o Lisboa Viva tem saldo suficiente para uma viagem na linha CP-SINTRA e vai comer um travesseiro à Piriquita, depois de uma bela noite numa qualquer hostel e de um dia a ver os jardins por fora, porque as entradas são caras 'pra caneco.

Mais um casal normal, quando pensa em férias românticas, passa dias a ver as promoções do Odisseias, marca um jantar romântico de pizza à beira mar (que na realidade é mais tipo uma sande de tomate e queijo, quente, numa tasca), e fica num hotel, também ele à beira mar, mas em tempo de chuva, que época baixa sai mais barato.


Depois temos outro casal normal, em que os elementos são a Taylor Swift e o Calvin Harris.

...

Devem ter comprado a viajem no Mygon.

-_-

Nojeintes
Vou alí ao Portinho da Arrábida e já volto.

15 de março de 2016

Sabes que o caso 'tá grave quando procuras isto no Youtube

MAS CALMA! FOI TUDO POR CAUSA DA SÉRIE SOBRE O O.J.SIMPSON.

...

...
Já não se fazem "sonzassos" como este. É que simplesmente não. 
Mas é que não mesmo.

PREFUNDE!
(quase tanto como as "entradas" na testa do senhor)
(tanta gangaaaaaaa)
(águia, cavalo, dama semi-nua, cavalo, águia, grutas, águia)
(Jesus caminhando sobre as águas)
(aquelas chamas ardentes são tãoooo pré-photoshop)
(agora já não se usa chumbo nos dentes)
(toda uma floresta amazónica naquele peito, Tony Ramos style)
(fosse isto gravado no Algarve e eram só tabuletas a dizer "Cuidado com as arribas!Perigo de derrocada!")

8 de março de 2016

Mulher

Rasgo de Sol em tempestades,
é o que tu és.
Raízes de árvore que não cede,
apenas tolda para dar os seus frutos,
é o que tu és.

Se te imaginas fraca,
como se de ti tivessem tirado à força
os filhos, o futuro,
não chores.
És a força dos rios e esses seguem sempre
em frente, no seu caminho,
tal como tu, até ao mar que te espera.

Nesse mar serás peixe, serás alga,
e a espuma das marés.
Serás o sal que seca na pele,
é isso que tu és, o sal, o sabor,
a textura de tudo o que é, foi e será.

De ti tudo nasce, em ti nada morre,
nada se esquece, tudo se vinca,
como as noites mal dormidas a tratar dos teus.

Em ti tudo floresce, tudo brota, de ti tudo vem,
és a Mãe, a Filha, a Servente e a Rainha.
És tudo Mulher, por isso nunca te faças nada,
por que sem ti nada será.

Vai.
Agora.
Sê muito,
sê tudo,
sê Mulher.

4 de março de 2016

Abram as Janelas - Poema do Sr. do Autocarro

Hoje, no autocarro, entra um senhor de muletas que ao sentar-se começa a gritar a plenos pulmões "Abram as janelas!".

Todos olham para o senhor, com ar de sexta-feira (que é igual ao de segunda, mas com mais olheiras) e pensam que é mais um maluco que tem por costume bradar as suas maleitas na rede de transportes.

Lança depois estes ditos, que para mim soaram a poema:

Acordem para a vida! É assim que ensinamos as crianças a sorrir? Olhem à vossa volta, olhem para a pessoa ao vosso lado. Toda a gente sentada, neste calor, é só ar condicionado. Abram as janelas! É preciso ar corrente. Vêm eles de avião passar cá férias...e nós?! Nem à Fonte da Telha vamos! Como é que vão ser produtivos? Passei a vida toda a trabalhar para isto? (abre os braços)...Olhem ali as ervas daninhas, a dar flores, e nós aqui, doentes e com tosse. Abram as janelas! Ar corrente! Temos de dormir e comer como deve ser e não só um cafezinho e um queque de manhã. (levanta-se para sair deixando o lugar vago)

Pronto, já se vão sentar no lugar. Até correm!... Ainda agora se levantaram e já estão sentados.

E saiu. E o ambiente no autocarro mudou, no inicio era um maluco, depois deu para rir, no fim...bem...acho que ficámos todos a pensar na nossa vida e não teve piada nenhuma.

Não sei quem era este senhor, e claro que o cito provavelmente com erros e interpretações dos meus ouvidos...mas um grande obrigada e um maior ainda pedido de desculpa por o achar louco de início, quando depois me deu uma tão valente chapada de realidade.

1 de março de 2016

Como construir uma casa

Muitas pessoas perguntam-me " Cusca, como é que consegues ser tão racional?". Bem...desengane-se quem pensar assim, não sou assim tanto.

Sou, sim, uma pessoa de temperamento forte, muitas vezes irascível, que quando se chateia leva tudo à frente. Então, porque é que tantas vezes me julgam calma e racional, fria até? Simples. Porque sei construir uma casa.

Tiveram um momento "wtf?!", mas eu passo a explicar:

No inicio da minha relação comigo mesma, nós não nos dávamos muito bem. Eu e a minha cabeça, o desgraçado do coração, o tempestuoso temperamento, as emoções descontroladas...bem, andávamos todos de costas voltadas, amuados, a fazer birras, a ver quem ganhava. Era difícil conviver com tantos Eu's, tantas forças a puxarem para tantos lados, até que um dia percebi que tinha de morar com esta malta toda, e que não tinha escolha senão domá-los.

Decidi construir a minha casa : a casa da minha estrutura mental e emocional onde aprenderia a lidar com todos os impulsos e repulsas que me constituíam. Sabem o que fiz? Como qualquer bom construtor, distribuí tarefas.

Cabeça : decidi que ia usar o meu lado racional para estudar, para aprofundar conhecimentos práticos (meditação, coaching, terapia) que me permitissem criar um plano para construir a casa que queria para mim;

Coração: fui buscar os meus sonhos, segui-o até onde queria estar, usei-o para escolher as pessoas que queria convidar para esta minha casa, aprendi a ouvi-lo juntamente com a sua colega de trabalho, a cabeça, e percebi que quando os dois estão em sintonia, formam a música perfeita;

Temperamento: daqui tirei a minha força, os tijolos das paredes e as vigas do tecto, aprendi a controlá-lo e a direccioná-lo. Transformou-se na minha força de trabalho, a ferramenta que usava para deitar muros que me prendiam abaixo, apanhar as pedras que daí sobravam, e construir novas paredes, mais fortes e à minha medida;

Emoções: foram a argamassa e o colorido da construção. Algumas emoções mais tóxicas? Ora bem, toda a casa precisa de esgoto... as bonitas, positivas, de melhoria, usei entre os tijolos do temperamento para o amaciar,para o moldar.

Enchi esta casa de mim, de tudo o que fui, sou e serei. Nesta casa eu sou a única moradora permanente e escolho quem convido para entrar, mas cabe-me sempre a mim e só a mim melhorar esta casa...afinal de contas que sentido faz pedir a um convidado para andar a limpar paredes e emendar frechas?

Às vezes cai um pouco de estuque, sujo o chão todo, esfrangalho a mobília. Mas contínua a ser a minha casa, a da minha alma. E a vossa, de quem é?